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03/06/2009 - Facilite

Há apenas duas décadas, nossas opções de contato à distância se resumiam às cartas, telegramas e telefones – fixos, claro. Mas as revoluções que a internet e a informática trouxeram desde então fazem esse passado parecer muito mais distante. Afinal, pouca gente consegue se imaginar sem uma conta de e-mail, por exemplo. A enxurrada de tecnologias digitais que surgiram está mudando completamente nosso acesso à informação, nossas formas de relacionamento, enfim, todo nosso estilo de vida. Páginas pessoais, blogs, salas de bate-papo, celulares, pagers, smartphones, Messenger, Twitter. São tantas novidades chegando constantemente com a promessa de facilitar a vida que às vezes enlouquecemos diante de tamanha complexidade.

“Em um futuro previsível, as tecnologias complicadas continuarão a invadir nossos lares e locais de trabalho”, diz o designer John Maeda em seu livro As Leis da Simplicidade. Especializado em tecnologia, ele fundou o Simplicity Consortium no Massachusetts Institute of Technology (MIT), com a missão declarada de “atingir a simplicidade na era digital”, e tornou-se uma espécie de guru, prestando consultoria para dezenas de grandes empresas de tecnologia. Ele afirma que esse é um caminho sem volta, e, como não podemos – nem queremos – abrir mão de tudo que essas maravilhosas tecnologias nos oferecem, a saída é ter mais clareza sobre como usá-las. Nas próximas páginas veremos algumas atitudes que podem nos ajudar nessa empreitada.


1. Saiba o que quer
Aplique uma lição geral e muito sábia para simplificar sua relação com qualquer tecnologia – e coisa – na vida: saiba muito bem o que você quer. Tome como exemplo o Twitter, a mais nova febre de comunicação online do mundo. Ele é uma ferramenta que permite o compartilhamento de mensagens curtas, de até 140 toques, via computadores ou outros dispositivos conectados à internet, como celulares e palmtops. Quando você manda uma mensagem, todo mundo que se cadastrou para segui-lo recebe, e você recebe todas as mensagens enviadas pelas pessoas que decidiu seguir. Sobre o campo em que se escreve a mensagem, o software pergunta: “o que você está fazendo agora?” São declarações banais como “trânsito infernal na Paulista” ou “altas ondas aqui no Leblon”. Claro que muitas mensagens não terão utilidade para você, e o Twitter pode consumir seu tempo e atrapalhar a vida. Ou ser uma ferramenta poderosa de comunicação e sociabilidade – basta escolher bem as pessoas que você quer seguir.

“Perder tempo é da natureza humana, não da tecnologia. Tenha em mente seu objetivo, e isso vale para a vida. Se vai ao supermercado comprar ingredientes para um jantar, não se perca na seção de pneus”, diz Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google. Ele lembra que quando conhecemos uma nova tecnologia nem sempre fica claro o que ela pode fazer por nós. “Essa dinâmica de aprender com a tecnologia e modificar nossa relação com ela conforme a conhecemos é fundamental para manter uma relação simples e produtiva”, diz o executivo, que gosta de comprar frutas no Mercado Municipal, em São Paulo, e viu alguma utilidade em publicar isso no Twitter. “Às vezes um amigo que gosta de fazer o mesmo descobre que gosto da mesma coisa e no próximo fim de semana vamos juntos. Uma maneira de manter minhas redes sociais mais ativas.”

Quer dizer, dependendo do seu objetivo, até aquele “altas ondas aqui no Leblon” pode ser útil. É só você não se esquecer do que quer


2. Busque o simples
Intuitivamente, sempre desejamos a simplicidade. Tem coisa mais confortável que um site ou blog claro e limpo, em vez de músicas de fundo e coisas se mexendo na tela? A simplicidade facilita nossa relação com a tecnologia. Repare na home do site de pesquisa Google. Ela é básica, qualquer um pode usar. Por isso é um sucesso. Na internet, porém, lidamos constantemente com sites que fazem o contrário: para impressionar os internautas, criam visuais poluídos, e assim diminuem seu poder de comunicação. Web designers profissionais sabem da importância da “limpeza” e recomendam: pense nisso na hora de escolher os sites para ler e também quando for bolar o visual do seu próprio blog.

“Lembro-me de um grupo de fotógrafos que rodou o mundo pedindo às famílias que elas colocassem em frente de casa os objetos que consideravam essenciais para viver. Fotos de casas em Los Angeles tinham 4 mil objetos. Na África, uns 30”, diz Rique Nietzsche, professor de design estratégico da ESPM. “Quer dizer, será que precisamos de tanta coisa para viver bem?” A pergunta pode nos ajudar muito na hora de nos relacionarmos com a internet, pois programas simples podem ser mais adequados a nossa necessidade e facilitar nossa vida, ainda que eventualmente não tenham tudo o que poderiam oferecer.


3. Ordene a bagunca
Quando recebe um documento por e-mail e quer salvá-lo em seu computador, onde você o coloca? A resposta é um bom indicador de sua capacidade de organização, princípio importante para uma relação saudável com as tecnologias. Há os que salvam tudo no desktop, para manter tudo à vista, perdem tempo procurando um entre dezenas de ícones na tela – o que também deixa seu computador mais lento. Ou salvam tudo na pasta “Meus Documentos” e perdem tempo entre centenas de arquivos. Ou ainda abrem uma pasta para cada coisinha, e perdem tempo procurando a pasta onde colocaram um arquivo qualquer.

Então, para começar, faça uma lista de tudo que você tem para organizar no seu computador e tente agrupar por semelhança. Depois, rotule. Dê um nome para cada agrupamento que você criou. Se for fácil dar nomes, é porque eles têm alguma coerência, e isso vai ajudálo mais tarde. Em seguida, integre. Se alguns rótulos parecem semelhantes, coloque-os juntos. Quanto menor o número de grupos, melhor. Por fim, priorize. Identifique os grupos mais importantes e junte tudo. Se você está organizando o computador de casa e no próximo ano vai usá-lo basicamente para seu mestrado, pense em criar uma pasta “Mestrado” e colocar todo o resto em “Outros”. Concentre-se no que é importante.

Experimente esse método com as pastas de seu computador, com as mensagens de e-mails, os grupos de amigos no Messenger, os álbuns de foto online, por exemplo. Os álbuns de fotos do Flickr são um bom lugar para treinar. Esse programa permite que você crie álbuns, ordene as fotos, associe as imagens a outras pessoas e dê títulos e legendas para cada uma delas. Organizando, você elimina arquivos desnecessários – ganha espaço – e coloca em evidência as fotos mais interessantes e bonitas.


4. Estude o assunto
Como diz John Maeda, “o conhecimento torna tudo mais simples”. Para o designer, embora a gente pense que está perdendo tempo ao estudar uma tecnologia, geralmente economizamos horas mais adiante.

As famosas redes de relacionamento (como o Orkut ou o Facebook) são exemplos de sites que permitem um mar de possibilidades, pouco exploradas graças à nossa ignorância. Você pode adicionar amigos, postar mensagens, mandar mensagens para usuários específicos, criar grupos e eventos, adicionar vídeos ou fotos. E tudo isso de diferentes formas e níveis de privacidade. Apesar de tantas ferramentas, a maioria das pessoas só consegue fazer o básico. Para fazer mais, não tem jeito: tem de fuçar e investir um tempinho aprendendo a mexer no site. Depois, você não vai perder meia hora para apenas trocar a foto do seu perfil.


5. Desligue-se
Finalmente, saiba a hora de desligar tudo e se conectar no mundo real. A impessoalidade da comunicação na internet é outra prova de que às vezes é melhor abrir mão da tecnologia. Quantas ironias não viraram ofensas na falta do tom de voz do seu interlocutor? “Se seu colega de trabalho está a duas baias, por que você não pode levantar e chamá-lo para almoçar, em vez de falar com ele no programa de mensagens instantâneas? É muito mais humano”, diz Ximenes, do Google.

Mesmo para nossa saúde é importante não se esquecer de colocar limites na invasão tecnológica. “Tem gente que precisa conferir e-mails constantemente”, diz a psicóloga Thais Maluf, que atende pessoas com dependência de internet no Programa de Orientação e Atendimendo a Dependentes, da Unifesp. “É preciso estar atento, porque às vezes surge uma relação perigosa com o uso de internet, como ansiedade e depressão”, diz ela.

Logo, não perca de vista o valor de boas e velhas formas de “tecnologia”, como os encontros de verdade, o olho no olho. Antiguidades que dificilmente serão substituídas – ou ficarão obsoletas.

Retirado do site Vida Simples
Texto de Tarso Augusto
 
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